A gripe, as emoções e a necessidade de lucidezMorreu, no dia 28 de Outubro, uma criança de anos supostamente em consequência da infecção pelo H1N1 (gripe A). Como é natural, o caso chocou a opinião pública, mas é necessário pensar no assunto com alguma lucidez e sem sensacionalismo.
As doenças, todas elas, podem surgir em qualquer pessoa. No caso particular dos vírus, como o da gripe, há grupos em que o risco de uma evolução desagradável e até de morte é maior, como são os muito idosos, as pessoas que têm doenças pulmonares, cardíacas ou musculares crónicas, as grávidas, as pessoas com cancro, entre outras. São estes grupos os considerados prioritários para a vacinação – estes e os que, não correndo especiais riscos com a gripe, podem ser, pela sua profissão, grandes agentes de infecção: médicos, enfermeiros, trabalhadores de lares, etc. No entanto, ninguém está isento de risco, e em todos os grupos etários podem surgir casos de má evolução em pessoas aparentemente saudáveis.
O vírus da gripe A (H1N1) é um vírus relativamente “suave”, em comparação com a média dos outros vírus da gripe. Todavia, como se trata de uma nova estirpe, a população está mais susceptível, pelo que a gripe vai atingir um número muito maior de pessoas do que nos anos anteriores. Assim, mesmo sendo um vírus “manso”, haverá seguramente mais casos de internamentos e até mesmo de mortes. E se a maioria dos casos que evoluem mal serão nas pessoas que têm os referidos factores de risco (como já acontece, anualmente, a cerca de 1200 pessoas, com a gripe sazonal), pelo facto de tantas pessoas terem a gripe, ocorrerão casos fatais em pessoas saudáveis ou aparentemente saudáveis, como foi o caso desta criança.
Como a transmissão deste vírus é, sobretudo, respiratória, as crianças, porque convivem “corporalmente” mais e brincam umas com as outras (e com os familiares) tendem a transmitir mais a infecção (não é por acaso que, na brincadeira, se chama aos infantários, “infectários”).... e a apanhá-la mais. Assim, mesmo não sendo um grupo de especial risco em termos de desenlaces maus, são-no em termos de quantidade de pessoas desta idade infectadas. E como agentes de infecção para outras pessoas, vão passar a infecção aos familiares e irmãos.
A gripe, vista como doença individual, numa pessoa saudável, não é uma doença grave (embora, repito, possa raramente ocorrer um caso de má evolução, como o da criança que mencionámos) e o seu diagnóstico é clínico (não há necessidade de análises, salvo em situações muito especiais). Do mesmo modo, não há necessidade, nas crianças, de tomar antivíricos (Tamiflu®, Relenza®, etc). Deve tratar-se, apenas, cada sintoma que surja e fazer uma convalescença de pelo menos quatro dias depois de acabar a febre, bem como repouso e não praticas exercício físico intenso durante cerca de dez dias depois da doença.
Há que ser lúcido e ter bom senso, sob pena de gastarmos as energias com uma doença que não as merece, desleixando outras situações mais importantes, como a prevenção dos acidentes ou de outras doenças mais graves.
A DGS e o Ministério da Saúde têm sido exemplares. Há que seguir o que recomendam, vacinar os grupos considerados de risco acrescido (a vacina é segura e o ritmo de fabrico é o que todas as vacinas da gripe têm), tratar bem a doença e não embarcar em histerias colectivas que não adiantam nada e que podem prejudicar, em muito, a assistência aos doentes que verdadeiramente necessitam dela.
Mário Cordeiro
Pediatra. Professor de Saúde Pública – Faculdade de Ciências Médicas - UNL